Realmente, eu não achei que fosse ver de tão perto coisas que ando vendo recentemente, é bem como diz a sabedoria popular; "quando eu penso que já vi tudo"...
Tudo bem eu sei que eu sempre vivi no mundo "Nárnia", mas aqui "Nárnia" é amostra grátis, a vida no navio é um grande buraco negro.
Sim, neste ultimo mês sinto como se eu tivesse envelhecido uns dez anos, pelo menos.
Morar no navio nem de longe pode ser descrita como ruim, pelo menos na minha opinião, mas mostra as facetas e comportamentos que nunca vi, de mim mesma e dos outros também .
Bem é verdade que quem tem caráter é igual aonde vai, independente da realidade e contexto que vive, e que pessoas "boas e ruins" temos em toda parte, mas percebo que muitos aqui se perdem de si mesmo não por maldade, mas por talvez por se sentirem mais livres e mostrarem o que realmente são.
Como eu já disse, aqui tudo é muito intenso e por isso também uma bela oportunidade de perceber quem realmente se é, quem se "quer ser".
Pessoas desonestas, pisando uma nas outras, sem profissionalismo, imaturas é infelizmente a minha realidade agora.
E como se tudo já não fosse difícil por natureza, alguns tornam tudo ainda mais difícil .
Sim trabalhamos muito, e alguns acham que a minha vida, a vida dos tripulantes, é só "alegria", ir a lugares paradisíacos, acordar cada dia em um lugar diferente, ganhar rios de dinheiro, apreciar comida e etc, e mais uma vez me valho da sabedoria popular "o povo só vê as cachaças que eu tomo, não vê os tombos que levo".
Não quero que estas palavras soem como reclamação, porque isto não é o que quero dizer, mas também é o retrato de uma realidade que provavelmente só quem vive sabe.
Eu honestamente, estou muito feliz, mas não sei se suportarei cumprir toda minha missão, esta última semana e todos seus acontecimentos, tem me feito repensar muitas coisas, e a vontade de ir pra casa existe, carência, saudade e cansaço fazem muita parte do meu cotidiano agora, e embora eu não goste de deixar as coisas que começo pela metade, não sei se consigo terminar meu contrato, pois eu não cheguei nem na metade, e me sinto as vezes exausta.
Acredito também que, lar é aonde a alma se aquieta, mesmo que não tenhamos um ponto fixo, e aqui nesse tipo de vida que estou tendo minha alma encontra pedaços de mim que por muito tempo eu procurei.
É bom se sentir assim.
Quando tudo fica difícil demais tento me lembrar do que vim realmente fazer aqui, penso em tudo que já aprendi e nos lugares maravilhosos que vi, e mentalizo os lugares lindos que posso ver e na pessoa melhor que posso ser quando tudo isso acabar.
Mas para isso é preciso respirar bem fundo, não se deixar levar pela maldade alheia, ser forte mesmo, talvez como nunca tenha sido necessário ser.
É quando vejo cenas como a que vi do capitão na nossa loja e compreendo que todos nós temos nossos limites que queremos mesmo no fundo é ser aplaudidos, respeitados, amados.
E ainda fico mais firme no meu pensamento de que o que vale é ser inteiro, verdadeiro, honesto, integro e que embora nem todos sejam assim, é necessário não se deixar corromper.
Sai de mim elétrons, e quem é "cipó" sabe que é necessário segurar na mão de Deus e "ir".
Sim, sou muito esquisita e isso também acredito que não vai mudar não é isso que está atrapalhando e nem é isso que eu quero, mas pra falar a verdade tudo que eu queria agora era comer uma boa "Coxinha de frango".
Do prazer das coisas simples e fáceis da vida estou cada vez melhor, olhar o mar, telefonar para a família, ter "miojos" guardados e compartilhar, ah compartilhar uma das lições mais preciosas e presentes na minha vida agora.
Aqui estou perdendo um monte de frescuras que eu tinha, minhas manias de repente se foram, ufa, ainda bem, mas percebo que novas manias estão surgindo.
Afinal viver nessa comunidade de que tudo se sabe, que de tudo se divide tem seus prazeres também.
Bom, chega de "enxer" vocês com estas palavras.
Um beijo para todos que eu amo, e aqueles que me amam, saibam que eu sinto uma saudade imensa e ímpar.
"E se tiver baqueada, vai baqueada mesmo".
