Amarrem seus sacos de lixo
Hoje como há muito tempo não me sentia assim, tão mal comigo mesma.
Muita vergonha alheia.
Ao fazer o último passeio do dia com o Joe, encontrei na porta do meu
prédio, mais exatamente na lixeira, um grupo de catadores de lixo.
É eu não consegui olhar nos olhos deles, e mesmo assim fiquei prestando
atenção no que diziam, “Cara esse povo nem amarra os sacos de lixo eu tenho uma
raiva disso!” o outro disse“Sem condições” , e detalhe caindo lixo para todo
lado, e um lixo (porque o nome já fala – lixo) muito nojento!
E eu continuei minha caminhada de maneira desajeitada pensando no que eu
havia escutado, tentando entender porque um fato tão aparentemente simples
estaria me deixando tão atordoada.
Assim resolvi escrever, não só para dizer de mim mesma, mas para tentar
me tornar mais humana, e perceber o quanto às vezes sou vazia e mesquinha.
Eu não nasci em berço de ouro, na verdade era uma pobreza em que minha
avó era quem comprava frutas e verduras para minha mãe comer na gravidez que
ela estava de mim, e logo que nasci também, porque meu pai só comprava o
básico, e longe de ser o meu básico de hoje!
O fato é que ouvimos o tempo todo falar de fome, de humilhações dos
pobres, mas gente veja bem todo trabalho é digno, pois é com ele que nós,
pessoas honestas, adquirimos nossas coisas, mas vamos combinar ficar as 22:00h
catando lixo como é muito desagradável.
E não adianta vim com o discurso “ah era só ter estudado que não estava
catando lixo”, caramba todos nós sabemos que o mundo é muito mais que essa
desculpa, todos temos consciência da situação espiritual de cada um, e sabemos que podemos lutar para melhorar, mas
sinceramente já devo ter visto essa cena dos lixeiros várias vezes e só agora
talvez tenha percebido como é o “mundinho” que vivo.
A verdade é que somos muito mais do que nossas profissões, mas eu
particularmente com 07 anos de formada até hoje não sei se quero ser arquiteta
e urbanista, e outra questão é que por estar desempregada a uma semana estou
aflita, enquanto que tenho uma vida praticamente perfeita, pois só digo que não
é perfeita porque olhando friamente agora para o espelho percebi a minha
ingratidão para com meus pais, com Deus e comigo mesma, e agradeci de coração
por viver de maneira tão perfeita!
No passado meus familiares passaram por dificuldades, isso também é
verdade, mas nunca tive que trabalhar para sustentar a família, nunca teve uma
pessoa doente convivendo comigo, estudei a vida toda em escola pública, mas o
fato é que estudar e brincar era minhas únicas atividades...
Comparo a minha vida às vezes com a das pessoas que convivo, e ainda
assim posso dizer que tive uma vida “difícil”... É eu já pensei assim, só porque não fiz
inglês quando era adolescente, ou porque nunca papai me deu roupa de marca,
entre outras baboseiras... Como estou envergonhada!
Não é a toa que aos 31 anos percebi que tenho que ficar mais calada, mas
o duro é enxergar quanta besteira eu já devo ter dito por ai, às vezes
consciente e as vezes sem noção mesmo.
Penso que nunca é tarde para perceber a imensidão da vida, e aprender a
ser mais grata a tudo e todos, e uma dica se não entenderam nada do que eu
disse, que triste, procure um espelho urgentemente.
Com certeza a partir de agora com uma “bobagem dessas vista” passarei a
viver melhor e responder para o universo o que eu já deveria estar respondendo há
muito mais tempo.
Dá licença, vou ali “arrumar sacos de lixo da minha vida”, quando eu for
alguém melhor eu volto quando para conseguir olhar nos olhos deles, só agora me
dei conta porque não tinha conseguido fazer isso.
Ah e, por favor, amarrem seus sacos de lixo.
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